Ambulatório

Algumas informações úteis para a população em geral

Preâmbulo:

O desenvolvimento da cirurgia e da anestesia tem permitido nos últimos anos a realização de operações com menor agressividade e com uma recuperação mais rápida, possibilitando estadias hospitalares mais curtas que no passado, chegando mesmo em muitas ocasiões a não necessitar que o doente durma no hospital. Este modelo organizativo é conhecido entre nós por cirurgia em regime de ambulatório e está na base da profunda revolução que assistimos nos últimos 30 anos no domínio da cirurgia, permitindo hoje que doentes e familiares se vejam envolvidos num processo cirúrgico com menores repercussões sobre o seu dia-a-dia.
Este contexto da medicina moderna tem permitido assim o desenvolvimento de programas que visam uma melhor organização com maior eficiência e eficácia a custos mais reduzidos mas com idêntico nível de qualidade e segurança, no qual a Cirurgia Ambulatória (CA), é um exemplo por excelência.
O Hospital Geral de Santo António (HGSA) tornou-se numa referência nacional neste domínio, tendo principiado o seu programa em 1993, e operado mais de 17.000 doentes neste regime cirúrgico.

O que é então a Cirurgia Ambulatória ?

Será toda a operação em que o doente vindo do seu domicílio, é operado nesse dia, regressando algumas horas após a sua casa na companhia dos seus familiares, sem necessitar de dormir no hospital. Significará assim que o doente apenas fica algumas horas no hospital quando a sua operação pode ser realizada nestas condições.
Não se pretende com isto dizer que após a alta hospitalar o doente esteja em condições de retomar a sua actividade profissional normal, mas sim que não necessita de cuidados continuados que o obriguem a ficar internado no hospital, podendo continuar a fazer a sua recuperação após a cirurgia em sua casa, junto dos seus familiares, seguindo as instruções da equipa médica responsável pela operação efectuada.

Em que cirurgias esta organização pode actuar ?

Não é possível aplicar esta organização em todas as operações, mas já o podemos fazer na maior parte destas. Na verdade, a evolução da tecnologia e da ciência médica tem sido de tal forma, que um pouco por todo o mundo mais de metade dos doentes cujas operações não são urgentes, são operados neste regime cirúrgico: hérnias, operações às hemorróidas, operação à vesícula por laparoscopia ou à tiróide, exérese de quistos sacrococcígeos ou lipomas, operações às varizes, circuncisões e cirurgias nos testículos (hidrocelos, quistos, biópsias), cirurgia para laqueação das trompas por laparoscopia, cirurgia às cataratas, múltiplas operações ortopédicas nos membros inferiores ou superiores, inúmeras cirurgias pediátricas e plásticas, etc. Só nos Estados Unidos da América mais de 20 milhões de doentes por ano são operados em regime de ambulatório.
No nosso país, em 2005, mais de 75.000 operações foram realizadas neste regime cirúrgico o que correspondeu a cerca de 22% de toda a cirurgia programada efectuada (num total de cerca de 345.000 intervenções cirúrgicas programadas). Nesse mesmo ano, o HGSA operou mais de 3.500 doentes em regime de ambulatório (cerca de 35% das 10.000 cirurgias programadas efectuadas pelo HGSA).

Mas que vantagens traz a Cirurgia Ambulatória ?

Como vimos, um vastíssimo número de operações ao serem realizadas em regime de ambulatório com a mesma qualidade e segurança que quando os doentes são internados, proporcionam inúmeras vantagens aos doentes, aos profissionais de saúde, às Instituições Hospitalares e ao próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS). Enfim, toda a Sociedade é altamente beneficiada por este regime cirúrgico:
1. Uma maior poupança nos gastos da Saúde. É vulgarmente referido poupanças que andam à volta dos 40 a 80% dos custos quando essas mesmas operações são efectuadas em regime de internamento.
2. Uma redução das listas de espera cirúrgicas: na verdade a organização destes programas permite uma elevada eficiência e um claro aumento de produtividade com reflexo nas listas de espera cirúrgica de qualquer SNS; no nosso país a promoção da CA poderia contribuir decisivamente para a resolução deste grave problema social não só por actuar nas suas raízes (pelo aumento da produtividade) mas por ser uma solução mais racional do ponto de vista económico (tem menores custos que os programas especiais de recuperação de lista de espera promovidos nos últimos anos por diferentes equipas governativas – vidé PPA / PECLEC / SIGIC – produção adicional).
3. Uma menor possibilidade de complicações quer sejam decorrentes do ambiente em que os doentes se encontram (menor possibilidade de contraírem infecções de origem hospitalar por menor contacto com outros doentes que possam ser portadores de infecções graves), quer sejam resultantes da própria operação (a recuperação mais rápida dos doentes que evita que estes se encontrem por tempos prolongados no seu leito, permitirá reduzir a incidência de complicações na circulação sanguínea, no coração, nos pulmões, nos intestinos, etc).
4. Uma maior disponibilidade de camas nos hospitais para outros doentes, melhorando a eficácia dos serviços de saúde no tratamento de doentes com problemas mais graves.
5. Mais rápida integração familiar e socio-profissional possibilitando o apoio e o conforto da família de uma forma quase imediata que, se é importante para todos, se tornam fundamental quando pensamos em crianças e idosos; a possibilidade de um início da actividade profissional mais rápida, em virtude da evolução da tecnologia e aliada a uma maior motivação e incentivo para o retomar da vida diária normal é outro aspecto muito importante, e que tem impacte económico e social muito significativo.
6. Uma maior humanização no atendimento ao doente, através de um serviço geralmente realizado numa Unidade sem a dimensão dos grandes Hospitais em que a humanização é mais difícil de obter, com uma equipa de profissionais motivados e empenhados num serviço de qualidade com grandes preocupações na informação e esclarecimento de doentes.

Que doentes podem então ser operados neste regime cirúrgico ?

Calcula-se que mais de 65% de todas as operações não urgentes possam ser realizadas em regime de ambulatório. Naturalmente que existem excepções. Aqueles que são portadores de doenças cardíacas ou respiratórias graves, que fazem determinado tipo de terapêuticas (doentes a fazer hemodiálise, a necessitar diariamente de insulina, a fazer medicamentos que exigem controle num Serviço de Sangue), ou com grande instabilidade psicológica não devem ser incluídos num programa deste tipo.
Também determinado tipo de operações não podem ser realizadas neste ambiente. A título de exemplo, refiram-se as operações ao cérebro, as operações pulmonares ou cardíacas, as grandes operações ao abdómen por cancro ou outras causas (transplantes ao fígado, pâncreas, rins, etc) também não podem ser realizadas em regime de ambulatório.
Por razões de ordem social também determinados doentes poderão ter que ser excluídos de programas cirúrgicos planeados em regime de ambulatório. Serão exemplos, doentes que habitem muito longe (com mais de 60 minutos de distância) do hospital onde irão ser operados (haverá a possibilidade de nestes casos planearem a dormida na primeira noite após a operação, em casa de familiares ou mesmo em hotéis ou residenciais que existam perto do hospital), que não tenham qualquer acompanhante (que vivam sozinhos ou cujos familiares não possam permanecer com o doente nas primeiras vinte e quatro horas após a operação), que vivam isolados sem qualquer capacidade de comunicação telefónica, ou que habitem em condições insalubres (sem água canalizada, electricidade ou saneamento básico).
O regresso a casa no final do dia, na companhia dos seus familiares, deve ser sempre feito em transporte particular (carro próprio ou de aluguer), evitando-se assim os transportes públicos.

Que cuidados a ter no momento da alta ?

O momento da alta é crucial para o doente, porque é nesta altura que ele poderá sentir que está a ser “abandonado” pela Instituição do SNS que lhe prestou os cuidados cirúrgicos de que necessitava. Importa assim desmistificar esta ideia, transmitindo ao doente e familiares elevada confiança no pós-operatório, que é seguido pela equipa de saúde envolvida através de contactos telefónicos ou das consultas médicas subsequentes, para além de toda a informação oral e por escrito que lhe é transmitida no momento da alta e que o ajudará a ultrapassar mais facilmente os primeiros momentos após a operação. O doente e os seus familiares devem ter a noção que a ida para casa tem o objectivo de proporcionar àquele as melhores condições físicas, psíquicas e sociais de forma a recuperar mais rapidamente da sua operação, mas nunca uma alta clínica que proporcione um imediato regresso à sua actividade profissional. Essa fase virá posteriormente passado algum tempo, dependendo naturalmente do tipo de intervenção a que foi submetido: desde 3 dias para uma laqueação das trompas até cerca de 3-4 semanas para uma cirurgia de hérnia inguinal, muito embora neste caso depende também do tipo de actividade profissional.

Qual a importância da Cirurgia Ambulatória para o HGSA ?

O Conselho de Administração do HGSA definiu como estratégia principal do seu Programa de Acção para o triénio de 2006/2008 a construção do Centro Integrado de Cirurgia Ambulatória que irá permitir ao HGSA dinamizar fortemente o seu Programa de Cirurgia Ambulatória, prevendo-se a cirurgia de mais de 12.000 doentes por ano, que representarão mais de 50% de toda a cirurgia programada a ser realizada no futuro.
Desta forma conseguirá o HGSA apresentar um programa cirúrgico global semelhante a qualquer país desenvolvido onde a cirurgia ambulatória é a que prevalece relativamente à cirurgia convencional, dita de internamento, como já hoje acontece nos Estados Unidos da América (70%), Canadá (65%), Reino Unido (65%), Dinamarca (60%), Noruega (60%), Holanda (50%), Austrália (50%) ou Nova Zelândia (50%).

Janeiro/2007